Índice
O que é Obesidade?
A obesidade é uma doença caracterizada pela acumulação excessiva de gordura corporal com impacto negativo na saúde e na qualidade de vida. Considerada por muitos uma pandemia, é assumida como um problema de saúde pública.
É uma doença crónica, complexa e multifatorial, tal como a Organização Mundial de Saúde define. Segundo a mesma, 12,5% da população tem obesidade. É reconhecida como doença em Portugal desde 2004.
O Índice de Massa Corporal (IMC) é um índice utilizado como ferramenta para a indicação da existência de obesidade e grau respetivo. É calculada dividindo o peso da pessoa pela sua altura elevada ao quadrado (kg = m2). Esta classificação permite diferenciar o excesso de peso da obesidade, por exemplo.
Em 2025, comissões internacionais como a The Lancet propõe uma redefinição da obesidade, considerando outros fatores além do IMC para a sua classificação.
Consideram que, embora o IMC > 30 ainda seja um indicador de obesidade, a existência de gordura excessiva (e a sua percentagem do peso total do corpo) deve ser verificada através de métodos como a bioimpedância ou densiometria (DEXA).
Isto porque, com o IMC a ser calculado com base no peso total, não está a ser distinguido o peso da gordura corporal do peso dos ossos, do músculo ou mesmo da água.
Assim, propõem que a obesidade seja definida da seguinte forma:
Obesidade Pré-Clínica: existência de excesso de gordura corporal, mas sem disfunções clínicas evidenciadas. Aqui o foco está em intervenções comportamentais.
Obesidade Clínica: excesso de adiposidade que já causa impacto negativo na saúde, necessitando de intervenção médica, nomeadamente ao nível de medicamentos ou cirurgia.
Desta forma, para um diagnóstico mais preciso de obesidade torna-se fundamental a avaliação da composição corporal, compreendendo o peso de cada componente do organismo para distinguir, sobretudo, a massa gorda da massa magra.
Que tipos de obesidade existem?
Quando falamos de tipos de obesidade falamos, muitas vezes, das classificações mediante o grau de IMC. Mas a distribuição de gordura corporal é, também, um fator relevante na avaliação da composição corporal. Onde acumulo mais gordura; na barriga ou nas coxas?
A obesidade androide, com acumulação de gordura sobretudo na zona abdominal, é mais comum nos homens. Está associada ao aumento da gordura visceral e a um maior risco cardiovascular.
A obesidade genoide é mais comum nas mulheres. A acumulação de gordura acontece mais na zona dos quadris e das coxas. Nestes casos, podem coexistir outras doenças, como o Lipedema, que se caracteriza por um acúmulo de gordura também nesta zona, mas cujos nódulos de gordura são diferentes. Estas são doenças muito diferentes, mas muitas vezes confundidas e que podem coexistir.
Quais são as causas da Obesidade?
ALTERAÇÕES HORMONAIS
As alterações hormonais influenciam diretamente os mecanismos que regulam a fome, a saciedade e o armazenamento de gordura.
O hipoestrogenismo — caracterizado por níveis reduzidos de estrogénios — pode ter um impacto significativo na regulação do peso corporal e na distribuição da gordura. Os estrogénios desempenham um papel importante no metabolismo energético, na sensibilidade à insulina e no controlo do apetite. Quando os seus níveis diminuem, como acontece na menopausa, insuficiência ovárica prematura ou em algumas situações clínicas específicas, tende a ocorrer um aumento da gordura corporal, sobretudo na região abdominal (do tipo andróide), o que está associado a maior risco cardiovascular e metabólico.
Além disso, a redução dos estrogénios pode contribuir para a diminuição da massa muscular, para a redução do gasto energético basal e para uma maior resistência à insulina, fatores que promovem o ganho de peso.
A resistência à insulina é outra condição de saúde que favorece a acumulação de gordura corporal. Uma sensibilidade reduzida à ação da insulina está frequentemente associada ao excesso de peso e, consequentemente, ao desenvolvimento de obesidade.
Também os desequilíbrios nas hormonas leptina e grelina — responsáveis pela regulação do apetite — podem aumentar a sensação de fome e dificultar o controlo na ingestão de alimentos.
Além disso, condições clínicas como o hipotiroidismo ou a síndrome dos ovários poliquísticos podem afetar o metabolismo e facilitar o ganho de peso, tornando o processo de emagrecimento ainda mais desafiante.
Sendo uma doença multifatorial, existem outros fatores, nomeadamente:
Estudos mostram que a herdabilidade da obesidade pode variar entre 40% e 70%. Desta forma, a genética cria uma predisposição para a obesidade e o ambiente familiar e social em que se vive promovem também essa existência. Em termos genéticos, esta predisposição afeta:
- As sensações de apetite e de saciedade;
- A preferência por alimentos mais calóricos;
- A regulação hormonal, como a leptina;
- O metabolismo, em termos de gasto energético e de forma como a gordura é armazenada;
- A distribuição da gordura corporal;
- A resposta ao exercício e à alimentação.
Esta é a causa mais associada à obesidade e ao excesso de peso. Escolhas alimentares diárias centradas em açúcar, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados promovem, de facto, a acumulação de gordura corporal.
Ser obeso ou ter gordura em excesso está muito associado a comer demasiado e erradamente. Contudo, nem sempre é assim, já que a obesidade é uma doença multifatorial. Muitas vezes, alimentar-se forma equilibrada e saudável não é suficiente para combater esta doença, o que provoca frustração.
Devemos compreender, assim, que a alimentação não é o único fator mas é um fator fundamental, já que define o estilo de vida e a forma como é nutrido o organismo.
Um dos fatores que mais promovem o excesso de peso e a obesidade é a falta de atividade física. Movimentar o corpo promove gasto calórico e mantém o metabolismo ativo. Um estilo de vida sedentário promove a acumulação de gordura corporal, uma lentificação do metabolismo, a diminuição da resistência física e da mobilidade.
Fatores psicológicos desempenham um papel relevante no desenvolvimento da obesidade, sobretudo através da chamada “fome emocional”. Situações de stress, ansiedade, depressão ou frustração podem levar ao consumo excessivo de alimentos ricos em açúcar e gordura como forma de compensação ou alívio temporário.
Além disso, episódios de compulsão alimentar também são muito comuns, criando um ciclo de culpa, ingestão e frustração difícil de quebrar. Questões como baixa autoestima, traumas ou perturbações do comportamento alimentar também podem contribuir significativamente para o aumento de peso.
Quais são as consequências da Obesidade?
Ter obesidade não é apenas ter gordura em excesso e dificuldades de mobilidade e autoestima. Não é, de todo, uma questão meramente estética, mas sim de saúde séria. A obesidade aumenta o risco de:
- Doenças cardiovasculares, como a hipertensão;
- Diabetes tipo 2, quando a resistência à insulina associada e não tratada evolui para tal;
- Alterações osteoarticulares;
- Alterações respiratórias, nomeadamente a apneia do sono;
- Alterações psicológicas e emocionais, nomeadamente relacionadas com autoestima e estigmas sociais.
Como diagnosticar a Obesidade?
Já não é suficiente diagnosticar a obesidade utilizando o cálculo do IMC. Como falado, este índice tem como foco principal o peso, não distinguindo que tipo de peso falamos – gordura, músculo, ossos, entre outros.
Por isto, é fundamental a utilização de ferramentas de avaliação mais precisa, como a bioimpedância que nos indica a percentagem de gordura corporal.
A medição do perímetro abdominal é fundamental para a definição do risco de gordura visceral.
A avaliação clínica, por um médico ou nutricionista, permitirá perceber se o contexto em que a pessoa vive, a sua alimentação, o tipo de atividade física e outros sintomas que podem revelar alterações no organismo são promotores de obesidade.
Qual é o tratamento da Obesidade?
Se a obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial, o seu tratamento deve ser também multidisciplinar. Não basta uma dieta ou fazer mais exercício. É preciso atuar de forma integrativa.
Desta forma, o tratamento para o excesso de peso e obesidade deve contemplar o seguinte:
A reeducação alimentar é um dos pilares fundamentais. Deve ser estratégico por forma a que se possa atuar a curto-prazo, mas também promover a manutenção do peso a longo-prazo. Assim, deve focar-se na criação de um défice calórico sustentável, ou seja, uma redução moderada da ingestão energética que possa ser mantida a longo-prazo sem comprometer a saúde.
A inclusão de uma quantidade adequada de proteína é essencial para preservar a massa muscular, aumentar a saciedade e melhorar o controlo do apetite. Paralelamente, o consumo adequado de fibra contribui para maior saciedade, melhor controlo glicémico e saúde intestinal.
Mais do que contar calorias, é crucial priorizar a qualidade alimentar, privilegiando alimentos naturais e ricos em nutrientes, e reduzindo o consumo de ultraprocessados, açúcares adicionados e gorduras de baixa qualidade.
Não existe um plano alimentar ou uma dieta única que seja funcional para todas as pessoas. Cada pessoa tem as suas necessidades nutricionais. As dietas de restrição calórica realizadas sem acompanhamento médico ou nutricional é um risco para a saúde.
Nutricionistas Mª Inês Antunes e Andreia Revez
A saúde intestinal tem vindo a ganhar destaque na compreensão da obesidade, sobretudo devido ao papel da microbiota intestinal na regulação do metabolismo, da inflamação e do apetite.
Um desequilíbrio na composição das bactérias intestinais (chamada disbiose) pode influenciar a forma como o organismo absorve os nutrientes, favorecer estados inflamatórios crónicos de baixo grau e alterar os sinais hormonais relacionados com fome e saciedade.
Uma alimentação rica em fibra, prebióticos e probióticos quando necessário, bem como a redução do consumo de ultraprocessados, pode contribuir para um microbioma mais equilibrado, com impacto positivo no controlo do peso e na saúde metabólica.
Dr.ª Carolina Ponte e Nutricionistas Mª Inês Antunes e Andreia Revez
Mais do que fazer exercício físico 7 dias por semana, o fundamental é aumentar a atividade física, movimentando o corpo sempre que possível e procurando uma postura mais ativa. Pequenas escolhas diárias devem ser feitas, como preferir escadas ao invés de elevadores, optar por caminhar em pequenas deslocações, entre outros. A este tipo de exercício chamamos de NEAT – Non-Exercise Activity Thermogenesis -, muitas vezes subvalorizado e que pode significar uma grande diferença no dia-a-dia.
Para a preservação e aumento da massa muscular, que também é crucial num processo de perda de peso, o treino de força e muscular, devidamente orientado e bem realizado, pode ser incluído nesta estratégia. Este é crucial para aumentar o metabolismo basal e melhorar a sensibilidade à insulina.
Os treinos cardiovasculares, como caminhadas vigorosas, ciclismo ou natação, aumentam o gasto calórico e melhoram a saúde cardiovascular.
Nos casos de hipoestrogenismo clinicamente confirmado, como na menopausa, a terapêutica de reposição hormonal (TRH) pode ser considerada após avaliação médica individualizada.
A reposição dos níveis hormonais pode ajudar a atenuar alterações metabólicas associadas à deficiência estrogénica, como o aumento da gordura abdominal, a diminuição da massa muscular e a maior resistência à insulina. A sua indicação deve sempre ser ponderada, sendo uma decisão partilhada entre médica e paciente.
Dr.ª Marta Padilha, Dr.ª Carolina Ponte e Dr.ª Olga Magalhães
A medicação para a obesidade pode ser uma ferramenta muito útil, especialmente em casos em que as mudanças no estilo de vida, por si só, não produzem resultados suficientes.
Entre as opções mais recentes destacam-se os agonistas dos recetores de GLP-1 e os agonistas duplos de GLP-1/GIP, que atuam na regulação do apetite, aumentam a saciedade, atrasam o esvaziamento gástrico e melhoram o controlo glicémico, contribuindo para uma redução significativa do peso corporal. Estes fármacos são particularmente úteis em pessoas com obesidade ou excesso de peso associada a diabetes tipo 2 ou resistência à insulina. Contudo, é importante realçar que a utilização destes fármacos não deve ser, por si só, uma solução única e que deve sempre ser integrado numa abordagem de mudança do estilo de vida.
Paralelamente, é essencial identificar e corrigir alterações, como o hipotiroidismo. Nestes casos, a terapêutica, quando devidamente indicada, ajuda a normalizar o metabolismo e a criar condições mais favoráveis para a gestão do peso.
Assim, a abordagem farmacológica deve ser sempre individualizada, integrada num plano multidisciplinar e acompanhada por profissionais de saúde.
Dr.ª Marta Padilha, Dr.ª Carolina Ponte e Dr.ª Olga Magalhães
O acompanhamento psicológico pode ser muito desbloqueador no tratamento da obesidade, especialmente quando existem padrões de fome emocional, compulsão alimentar ou dificuldades na relação com a comida e com o próprio corpo.
A intervenção psicológica pode ajudar a identificar gatilhos emocionais, desenvolver estratégias de regulação emocional mais saudáveis e promover mudanças comportamentais. Além disso, trabalhar a autoestima, a imagem corporal e crenças limitantes é essencial para quebrar ciclos de culpa e frustração, aumentando a adesão ao plano terapêutico e melhorando o bem-estar global.
Psicóloga Ana Carina Valente
Após o emagrecimento, a flacidez é uma preocupação comum, mas hoje existem tratamentos estéticos avançados que ajudam a recuperar firmeza, redefinir contornos e estimular a produção natural de colagénio.
A endermologia é um tratamento natural que atua de forma segura e eficaz, facilitando que a pele acompanhe a perda de volume. Com um plano personalizado, é possível realçar os resultados da perda de peso, melhorar a autoestima e conquistar uma silhueta mais harmoniosa e confiante.
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- Greenway FL. Physiological adaptations to weight loss and factors favouring weight regain. Int J Obes (Lond). 2015;39(8):1188-1196. doi:10.1038/ijo.2015.59.
- Melby CL, Paris HL, Foright RM, et al. Attenuating the biologic drive for weight regain following weight loss: must what goes down always go back up? Nutrients. 2017;9(5):468. doi:10.3390/nu9050468
- Cena H, Calder PC. Defining a healthy diet: evidence for the role of contemporary dietary patterns in health and disease. Nutrients. 2020;12(2):334. doi:10.3390/nu12020334
- National Heart, Lung, and Blood Institute. Exercise and fitness: guide to physical activity. Accessed August 5, 2024. https://www.nhlbi.nih.gov/health/educational/lose_wt/phy_act.htm